Foto do espetáculo DNA de Dan | Blog da ALIA (Crédito: Guto Rocha)

DNA de DAN no Festival de Dança de Londrina: grupo de extrema-direita tentou censurar performance e não conseguiu

DNA de DAN teve apresentação memorável em Londrina, marcada por tentativa de censura e pela participação decisiva do público

O espetáculo DNA de DAN, do artista curitibano Maikon K roda o Brasil há 4 anos e já ganhou vários prêmios, como o Prêmio Funarte Klauss Vianna.

Na performance, o artista se apresenta nu, coberto apenas com um gel espesso sobre o corpo, dentro de uma bolha de plástico translúcido de 7 metros.

Após um bom tempo em pé e imóvel, o artista começa a se mexer e o gel já seco vai se soltando aos poucos do seu corpo. A descamação da pele representa a metamorfose da serpente ancestral africana Dan, origem de todas as formas.

DNA de DAN tem duração de 4 horas e é interativa. As pessoas podem adentrar a bolha de plástico e fazer parte do espetáculo junto com o artista.

(DNA de DAN em Londrina | crédito da imagem em destaque neste artigo: Guto Rocha)

Em Brasília, DNA de DAN virou caso de polícia

Durante apresentação em julho deste ano em Brasília, o artista sofreu forte repressão da polícia, digna dos tempos da ditadura.

Na ocasião, Maikon K teve a sua bolha rasgada e invadida pela polícia. A PM agiu de forma truculenta, encerrando o espetáculo e levando o artista à força dentro de um camburão.

Em Brasília, a apresentação foi alvo de várias denúncias e uma queixa-crime. O artista chegou a ser preso e teve que assinar um termo circunstanciado por “ato obsceno”.

O motivo da queixa-crime: Maikon K se apresentava nu em um local público e isso incomodou algumas pessoas.

Após a ocorrência, o governador do Distrito Federal pediu pessoalmente desculpas a Maikon K pelo 'desconforto'.

O Sesc de Brasília, que organizou a apresentação não se pronunciou sobre a ação da PM.

DNA de DAN em Londrina: grupo 'reaça' tentou impedir a apresentação sem sucesso

No último domingo, 15 de outubro, o espetáculo foi atração do 15° Festival de Dança de Londrina, um dos maiores festivais de dança do país.

As apresentações de DNA de DAN acontecem geralmente em locais abertos e de grande circulação de pessoas. Em Londrina, o local escolhido foi o Anfiteatro do lago Igapó, no palco flutuante.

Sabendo da possibilidade de denúncias e repressão policial devido à nudez, a organização do Festival de Dança de Londrina providenciou todos os documentos e liberações para a realização da performance em local aberto. A apresentação enquadrava-se nas diretrizes da Lei do Artista de Rua.

Além disso, foram afixados cartazes com classificação indicativa da performance. Membros da produção informavam as pessoas sobre o espetáculo com nudez, oferecendo a possibilidade de desvio para quem não quisesse assistir.

Tudo transcorreu normalmente até pouco antes do final, quando a PM apareceu.

“Cordão humano” em torno de Maikon K garantiu que a apresentação fosse até o final; público presente frustrou tentativa de prisão do artista em Londrina

A Polícia Militar foi chamada antes do final do espetáculo por uma moradora de um dos prédios à beira do lago Igapó. Segundo relatos, ela assistia a performance da sacada de seu apartamento e ficou incomodada com a nudez do artista.

Um detalhe curioso: a moradora estava no seu apartamento no 15° andar, há mais de 100 metros do local...

A central de comunicação da PM também recebeu diversas solicitações para verificar uma “ocorrência de ato obsceno” em local público.

Mais tarde, foi constatado que a denúncia era parte de um movimento organizado, com braços de interesse político.

Com a chegada da PM ao local, a reação do público presente foi surpreendente: um cordão humano formou-se em volta do artista curitibano. O público garantiu que a performance transcorresse até o final e DNA de DAN terminou sob aplausos e protestos dos espectadores contra a tentativa de repressão policial.

Embora visivelmente constrangidos, os PMs presentes ainda tentaram abordar o artista para levá-lo à delegacia. O público presente impediu e protegeu o artista, escoltando-o durante todo o tempo.

Imagem do público cercando o artista | dna de dan | Blog da ALIA

Público cercou o artista, protegendo-o da abordagem policial. (Crédito: Kaos Imaginário)

Talvez por causa da atitude do público de proteção ao artista, a abordagem policial acabou sendo respeitosa.

Imagem dos coordenadores do Festival de Dança conversando com os PMs | dna de dan | Blog da ALIA

Os organizadores do Festival de Dança esclareciam aos policiais que não havia nada irregular com o espetáculo. (Crédito: Fábio Alcover)

Os coordenadores do Festival se dispuseram ao diálogo com a PM a todo o momento. Eles esclareciam todo o contexto e a importância da apresentação para o Festival de Dança de Londrina.

Por fim, a coordenação do Festival concordou em ir voluntariamente até a delegacia para prestar esclarecimentos ao delegado de plantão. O público permaneceu no local protegendo o artista, num contundente ato simbólico de resistência. Assista abaixo o vídeo dos momentos finais do espetáculo e da chegada da polícia:

(Vídeo: Nenê Jeolás)

A atitude do público durante a performance DNA de DAN representa um grande revés para o grupo de extrema-direita local. Eles buscaram censurar o espetáculo, sem sucesso. A tentativa de censura à arte, à educação e ao livre pensamento praticada constantemente por esse grupo tem enfrentado forte resistência da sociedade civil londrinense.

Um vereador local ultraconservador, conhecido por suas posições contrárias à arte e à educação, já estava na delegacia antes da chegada dos coordenadores do Festival.

O vereador fazia vídeos sensacionalistas condenando a performance e pressionava para a prisão do artista. No entanto, o delegado se recusou a receber o artista, que sequer chegou a ser encaminhado à delegacia.

Dessa vez, a ação rápida do público frustrou a tentativa de criminalização da arte e da nudez artística por parte do grupo ultraconservador de extrema-direita local, que tem no vereador um de seus líderes.

A rádio Alma também sofreu ataques desse mesmo grupo reacionário após a divulgação da cobertura jornalística do espetáculo no Facebook, em outra clara censura à liberdade de expressão. Foi publicada uma nota de repúdio na fanpage da rádio Alma no Facebook.

No dia seguinte, uma multidão compareceu ao ato público em defesa da arte e da liberdade de expressão, realizado na Concha Acústica de Londrina.

O encerramento do 15° Festival de Dança de Londrina aconteceu no dia seguinte à apresentação de DNA de DAN. A bailarina e cantora africana Fanta Konatê e a Troupe Djembedon (Guiné Conacri/Brasil) fizeram um show que levantou a multidão.

Em resposta aos fatos ocorridos no dia anterior durante o espetáculo, um grande público ocupou a Concha Acústica de Londrina. Foi lido um manifesto contra a censura às artes e ao livre pensamento. O público cantou e dançou ao som de tambores africanos.

Imagem de multidão na Concha Acústica | dna-de-dan | Blog da ALIA

No encerramento do Festival, coordenadores leram manifesto no ato defesa da arte e da liberdade de expressão e contra a censura. (Crédito: Pedro Potumati)

O show de encerramento do Festival foi transformado num contundente ato simbólico em defesa da arte e da liberdade de expressão e contra a censura.

(Vídeo: Nenê Jeolás)

O Golpe de 2016 e a onda conservadora chegando às artes

Após o golpe parlamentar de 2016, a polarização política do país se acentuou muito. Temos assistido a um festival de escândalos, ao desmonte sistemático de direitos consagrados e ao ataque diário às minorias.

A ascensão ao poder de grupos ultraconservadores e fundamentalistas como o MBL e das bancadas “BBB” (boi, bala e bíblia), com seus discursos de ódio e intolerância aos negros, índios, pobres e aos grupos LGBT, tem imposto medo à população, que está cada vez mais acuada e inerte.

A nova investida dos ultraconservadores tem sido contra a nudez artística nas peças teatrais e nas exposições em museus de arte. A interdição da exposição Queermuseu em Porto Alegre e protestos no Museu de Arte Moderna em São Paulo são casos sintomáticos deste tipo de ação fascista.

Grupos como MBL arrogam-se o direito de definir o que é o que não é arte e cultura, segundo sua visão torpe da realidade. De repente, transformaram nudez artística em “pedofilia financiada com o dinheiro público”. E o que dizer da exposição de corpos e orifícios (como da musa dos paneleiros ao vivo em rede aberta de TV) todos os anos no carnaval?

Não mais que de repente, ninguém mais se importa com a corrupção e a impunidade correndo solta em todas as esferas do poder. Por outro lado, se tem “um cara pelado no museu”, protestos violentos são organizados, exposições e peças são interditadas. Mas por que esses ataques à arte e à liberdade de expressão vêm acontecendo?

Pautas morais, polêmicas nas redes sociais e seu uso político

Uma das estratégias dos grupos ultraconservadores é a “moralização da política”.

Utilizando a mídia e as redes sociais, esses grupos trazem para o centro do debate político as pautas morais manipuladas para gerar polêmica e ódio ideológico.

Conseguem assim gerar visibilidade rápida e desviar o foco da agenda neoliberal que vem sendo implantada a partir do golpe parlamentar que se aprofunda desde 2016.

Esses grupos inserem as pautas morais apelando para o emocional das pessoas. Aguçam ou despertam preconceitos utilizando a internet para a disseminação de todo tipo de boatos e notícias falsas.

Infantilizam e desqualificam o debate político, formando imensas “massas de manobra” nutridas pelo ódio, que acabam lhes servindo de base de apoio, rendendo votos e poder político.

Londrina e a resistência ao fascismo: resposta contundente à onda conservadora

Londrina é uma cidade de muitos contrastes. Se por um lado temos uma comunidade cultural e artística fervilhante e de vanguarda, por outro lado a tradição conservadora da cidade vem mostrando sua cara novamente.

Grupos neofascistas que chegaram ao poder na cidade impõem medo e disseminam ódio à população.

Suas pautas que vão desde a tentativa de implementação do PL Escola sem Partido até a aprovação do “Dia do Nascituro” pela Câmara Municipal. Ao mesmo tempo, se recusam a votar projetos importantes como a instituição do Dia Municipal Contra a Homofobia, que já é realidade em mais de 20 cidade brasileiras e tem em sua essência a defesa da vida e a luta pelo respeito à diversidade.

O londrinense tem se mobilizado contra as forças conservadoras. A sociedade está vigilante contra o fascismo, ocupando organicamente espaços tradicionais de resistência.

Durante a eleição do Conselho Municipal de Cultura, a comunidade artística local, estranhando a presença e "candidatura" de pessoas alheias aos meios culturais, espontaneamente passou a acompanhar de perto as reuniões das câmaras setoriais. 

Foi constatado que um grupo ligado à extrema-direita estava se articulando para colocar representantes neoliberais nas cadeiras do Conselho. Segundo relatos, tal grupo chegou ao ponto de levar Kombis lotadas de moradores de rua atendidos por uma ONG local e de convocar por interfone moradores de prédios próximos à Secretaria de Cultura para votar em seus candidatos.

Obviamente, a comunidade artística local, receando que tal ação tivesse um viés político com o objetivo da dissolução do Conselho - como já ocorrera no passado recente, mas desta vez destruindo-o de dentro para fora - uniu-se para fortalecer e compor um Conselho com representantes legítimos da Cultura.

Foto do espetáculo DNA de Dan | Blog da ALIA

DNA de DAN (Crédito: Nenê Jeolás)

O episódio do espetáculo DNA de DAN representa um basta ao fascismo local. Um ato histórico de resistência que deve servir de exemplo para confrontos futuros com grupos da extrema-direita.

Não iremos mais nos calar. Londrina, a cidade do FILO, do Festival de Dança, Festival de Música e de tantos outros eventos importantes, que respira arte e cultura, não pode mais ficar inerte frente à censura dos reacionários e fascistas.

Mais do que nunca, o papel da arte local deve ser o da luta política e da resistência, custe o que custar. Que DNA de DAN seja só o começo.

A ONG ALIA é vanguarda na defesa intransigente das artes e dos direitos humanos em Londrina. Lutamos há 28 anos por uma Londrina diversa, plural, em que o respeito às diferenças seja uma realidade.

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